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sexta-feira, 1 de junho de 2018

Uma abordagem interessante sobre o hábito de ler em tempos de Google



Em um artigo anterior, vimos que um dos processos mais importantes para a descodificação e armazenamento da memória de longo prazo é a atenção.

Manter-se atento, não só favorece o surgimento de novas conexões neuronais, mas também permitem que elas se interliguem com conexões antigas, intensificando o processo de entendimento e armazenamento de informações.

Existem milhares de "distrações" que podem obstruir esse processo, desde a forma como a informação é ofertada até como é interpretada pelo receptor. Mas hoje, gostaria de fazer reflexões sobre como, em tempos de Google, estamos contribuindo para a redução progressiva da atenção e consequentemente para a perda de informações importantes através da leitura.

Você já notou alguma dificuldade para terminar de ler um texto extenso na Internet? Ou para ficar debruçado horas em algum livro? Já sentiu que, de certa forma, sua concentração não dura mais do que duas ou três páginas de textos?

Você não é o único! Várias pesquisas apontam que quanto maior o uso da web, mais dificuldade experimentamos para manter o foco. A velocidade de informações e a capacidade de se conectar a vários sites, chats e hiperlinks ao mesmo tempo impedem que a atenção seja mantida em um único assunto, e consequentemente conexões neurais não são formadas.

Um estudo recente, conduzido por alunos da University College London, mostrou que leitores online tipicamente leem uma ou duas páginas de um artigo ou livro e partem para outros sites. Algumas vezes, até chegam a salvar um texto mais longo, mas não existe evidências de realmente terminam a leitura. Os autores do estudo concluem que está claro que a forma de leitura online está mudando e que existem sinais de que novas formas de leitura estejam emergindo: usuários "navegam horizontalmente" através de títulos; páginas de conteúdo e resumos que são utilizados para "recompensas rápidas". E parece que os novos leitores estão procurando no online um motivo para evitar a leitura tradicional. Foi o que conclui esse estudo.

Entretanto, nem tudo está perdido em tempos de leitura virtual. Nos anos 70 e 80 basicamente o principal meio de construção de conexões era a televisão. Hoje, certamente lemos mais e mais rápido, porém é uma forma diferente de leitura, e consequentemente uma forma diferente de estruturação do pensamento. É um pensamento mais rápido e interativo, mas será esse um pensamento crítico e que forma conexões de longa permanência? A resposta é incerta. Diversas teorias tem emergido para explicar e melhorar o processo de leitura online.

Maryanne Wolf, psicóloga da Tufts University, prega que "nós somos COMO lemos". Ela defende que o estilo de leitura promovido pela internet, no qual temos a eficiência e o imediatismo acima de tudo, possa estar reduzindo a capacidade de uma leitura mais profunda, nos tornando "decodificadores de informações" e não consolidando informações em memórias de longo prazo.

Wolf também explica que a leitura não é parte inerente dos nossos genes, como é a fala. A mídia e outras tecnologias que usamos para aprender e praticar a leitura desempenham um papel importante na formação de circuitos neurais. Essas variações se estendem por inúmeras regiões cerebrais, incluindo aquelas que governam funções essenciais como a da memória e da interpretação de estímulos visuais e auditivos. É postulado também que os circuitos cerebrais desenvolvidos por leituras online sejam diferentes daqueles desenvolvidos pela leitura de livros e outras obras impressas. 

Nunca conseguimos processar todas as informações pelas quais somos bombardeados hoje pela internet e muitas vezes lemos um artigo horizontalmente sem a devida crítica e reflexão que a ciência nos impõe. Será esse o destino de diversas áreas do conhecimento humano, baseando-se em evidencia? Um mero emaranhado de informações que muitas vezes não são lidas nem interpretadas da maneira correta?

Por outro lado, hoje não nos vemos sem as informações e leituras veiculadas na rede. E, até o momento, sabemos que nosso cérebro responde bem quando oferecemos diferentes estímulos de aprendizado. Por exemplo: em uma experiência de sala de aula, o aluno absorve mais a informação quando utilizamos diferentes órgãos dos sentidos para formarmos conexões, ou seja, estímulo visual, tátil e verbal podem e devem ser utilizados nas novas formas de ensino. Neste sentido, a internet configura uma área de extrema importância. Utilizar uma ferramenta online, promove interatividade, rapidez e demonstração lúdica de informações, que associadas a experiências práticas e aulas mais tradicionais vão otimizar o processo de aprendizado. 

Portanto, ainda não temos uma conclusão sobre como a forma da informação e leitura veiculada nas redes afeta nosso aprendizado. Sabemos hoje que utilizá-la de maneira correta, ainda que misturada a técnicas mais consagradas, é arma fundamental para difundir conhecimento e ensino e, certamente, o grande desafio do educador, aluno e leitor do futuro.

Para você, que assim como eu e a maioria das pessoas, quer e precisa melhorar o processo de atenção e fixação do conhecimento, seja em leituras ou um aulas expositivas, aí vão cinco dicas fáceis de começar a usar:
  • Mantenha contato visual. Bons apresentadores sempre estão observando sua platéia. É nesse momento que você pode aproveitar e manter os olhos fixados no olhar dele para não perder a atenção.
  • Fazer perguntas que possam resumir ou voltar ao tema exposto, por exemplo "você poderia repetir esse ponto, acho que não entendi direito?" Permite que o pensamento volte para aquele momento em que foi perdido.
  • Faça pequenos movimentos com as mãos, pode ser mexer em uma caneta ou um algum anel. Dessa forma você mantém áreas cerebrais ativadas que vão manter a sua atenção.
  • Pare por um momento. Quando se sentir cansado, principalmente da tela do computador, parar, dar uma volta ou conversar com alguém vai causar um refresh na memória.
  • Durma. O sono ajuda a se manter mais alerta, focado e consequentemente produtivo. Desligue todos os aparelhos eletrônicos 30 minuntos antes de dormir.
Referências: Proust and the squid: the story and science of reading brain. Maryanne Wolf
The shallows and the glass cage: automation and us. Nicholas Car